segunda-feira, 5 de março de 2018

A PERFEIÇÃO DA MEDITAÇÃO: Khenpo Appey Rinpoche

A PERFEIÇÃO DA MEDITAÇÃO: Khenpo Appey Rinpoche


Khenpo Appey Rinpoche



A PERFEIÇÃO DA MEDITAÇÃO



A quinta das seis perfeições é a perfeição da meditação, ou concentração. Concentração significa colocar a mente em um ponto, sobre um só objeto, sem que ela oscile para um outro objeto. Quando este estado de concentração se junta com o pensamento de conduzir todos os seres sencientes ao estado de liberação, e também com a visão da realidade última, nesse momento a prática da concentração torna-se a perfeição da concentração.
A força que se opõe à concentração é a dispersão, a mente oscilante ou dispersa. Mesmo se tivermos uma mente de concentração, se meditarmos sobre a visão incorreta, isto não nos trará o resultado. Mesmo se meditarmos da forma correta, com a visão correta e também com a idéia correta de virtude, se buscarmos apenas o resultado para esta vida ou para nossa liberação pessoal, não é uma prática de concentração completa.
Quando a mente está dispersa, não conseguimos realizar coisa alguma corretamente. Assim como um curso de água começará a transbordar, indo em várias direções, se não tiver um lugar adequado dentro do qual possa fluir, da mesma forma, se nossa mente estiver distraída, nossos pensamentos irão em diversas direções, e isto não é benéfico a nós. E assim como a água irá sempre fluir para baixo, como uma cachoeira, se não tiver um canal dentro do qual possa fluir, da mesma forma, quando nossa mente não está dirigida no sentido correto, nossos pensamentos estarão sempre em uma direção negativa, buscando sempre pensamentos e ações não-virtuosos.
Será, portanto, um grande erro nesta vida se não formos capazes de nos concentrar ou de manter nossa mente de forma correta. Também na hora de nossa morte, se não tivermos tido a capacidade de concentrar nossa mente de forma adequada, teremos uma grande lástima na hora de nossa morte, e isto irá também criar infelicidade naquele momento. Podemos ver, assim, que no decurso de toda a nossa vida, até a própria hora de nossa morte, o fato de termos uma mente dispersa irá criar muito sofrimento.
Em nossas vidas futuras, também, nossa mente estará muito dispersa, e não seremos capazes de superar a dispersão, ainda que tentemos meditar. Assim como um curso de água que é muito difícil de deter quando começa a cair de um penhasco, da mesma forma, na vida futura será muito difícil obstruir a dispersão de nossa mente. Além do mais, se não formos capazes de obstruir nossa mente na vida futura, é o mesmo que dizer que mais e mais atos não-virtuosos irão surgir, e que devido ao número sempre crescente de prejuízos, o resultado será o renascimento em reinos sucessivamente inferiores.
Assim também, se meditarmos com a visão incorreta, isto criará muitos obstáculos para nós. Temos que ter a idéia adequada dos métodos de meditação, do objetivo da meditação, e da visão com a qual nos pomos em meditação, especialmente a visão da realidade última, no momento da prática da meditação. Houve, por exemplo, um praticante que meditou por doze anos sobre uma forma de vacuidade que não era uma visão adequada da realidade última. Como resultado, diz-se que em sua vida seguinte ele nasceu como um gato.
Quando nos dirigimos a algum lugar, se cometermos o engano de tomar o caminho errado, isto irá tornar nossa viagem mais longa e mais difícil, pois teremos que voltar todo o caminho que já percorremos, novamente até o ponto de partida. Da mesma forma, sempre que praticarmos a meditação, é necessário que tenhamos a visão correta a acompanhá-la, de modo a não cometermos nenhum engano no caminho. Segundo o grande Bodhisattva Maitreya, quando vemos outros meditando sobre a visão errônea, não deveríamos criar a idéia de querer competir com eles. Deveríamos, em vez disto, meditar sobre a compaixão pelo fato de eles estarem indo no caminho errado.
Diz-se, também, que se nós apenas meditarmos sobre a bondade-e-amor e a compaixão, sem uni-la à visão da realidade última, jamais conseguiremos obter o resultado da liberação. A meditação sobre a bondade-e-amor e a compaixão é uma prática virtuosa. No entanto, ela não é completa porque não está conjugada com a visão última da realidade. Por outro lado, se fizermos nossa meditação apenas sobre a visão da realidade última, sobre o estado de vacuidade e não a acompanharmos com a bondade-e-amor e a compaixão, ela também não será completa. A razão disto é que embora possamos obter um resultado como a liberação do Arhat ou o resultado do caminho de menor escopo da tradição budista, não estaremos beneficiando os outros seres. Assim, para praticar adequadamente, tanto a compaixão quanto a sabedoria, ou tanto os meios hábeis quanto a vacuidade, precisam ser praticados conjuntamente.
Quando observamos o antídoto para a mente distraída, vemos que existem dois antídotos:
1. O antídoto com relação à causa:

Métodos para Superar as Causas da dispersão

APEGO A OUTRAS PESSOAS – Do ponto de vista da causa da mente dispersa, a mente é dispersa por causa do apego, especialmente o desejar outras pessoas e também o desejar nosso próprio benefício. Para superar a dispersão precisamos destruir ou abandonar este tipo de apego.
Vemos que há muitos erros no fato de ter apego a outras pessoas. Em primeiro lugar, isto obstrui nossa compreensão do sofrimento, das dores deste mundo de existência. O fato de não vermos que este mundo de existência é um estado de dor e de tristeza faz com que não queiramos abandoná-lo. Isto também se deve ao grande apego a outros, pois quando temos que nos separar deles, um grande sofrimento surge em nossa mente. Caímos, também, sob o domínio de outras pessoas, e em vez de usarmos nossa vida em nosso corpo humano que obtivemos para uma boa finalidade, estamos só desperdiçando nossa vida ao usá-lo apenas com o fim de realizar o desejo de outra pessoa. Devido a isto, a pessoa pela qual temos um grande apego se torna um grande obstáculo a que obtenhamos o estado de iluminação. É uma obstrução sob muitos aspectos.
Vemos, também, que as pessoas neste mundo são muito difíceis de agradar. Por uma questão pequena, podem ficar muito felizes ou muito zangadas. Podem até se tornar seu inimigo. Às vezes podem gostar de você, às vezes podem não gostar. Às vezes até quando você faz algo de bom para outra pessoa, pensando que lhe está agradando, ela pode se virar contra você e ficar muito contrariada com aquilo que você está a lhe fazer. Em vez de ficar feliz, ela pode ficar com raiva, surgindo um grande ódio em sua mente. Vemos, assim, que agradar a uma outra pessoa é uma tarefa muito difícil.
Vemos, também, que os seres viventes são realmente muito difíceis de se lidar. Os que estão em posição inferior à nossa ficam com muita inveja de nós. Se estamos ao mesmo nível deles, tornam-se nossos grandes competidores, trabalhando contra nós. Se estão em posição mais alta do que nós, olharão para nós com desprezo, devido a sua posição. Se os elogiamos, tornam-se muito orgulhosos. Se apontamos suas faltas ou lhes fazemos críticas, ficam rancorosos. Então, qualquer que seja o relacionamento, e não importa o que fizermos, nunca poderemos agradar-lhes completamente.
Vemos, também, que as pessoas são muito instáveis. Se tivermos, por exemplo, um poder muito grande, não importa o que dissermos, os outros nos ouvirão sempre, porque respeitam o poder que temos. Se puderem obter benefícios de nós, irão escutar-nos. Se não puderem se beneficiar, ainda assim nos escutarão devido ao poder que possuímos. Mas no momento em que perdermos nosso poder, ainda que lhes digamos palavras agradáveis, ou ainda que lhes tenhamos feito, no passado, muitas coisas boas, nesse momento eles nunca nos darão ouvidos. Em vez disto, irão criticar-nos. Da mesma forma, quando somos ricos temos muitos amigos. Eles ficarão felizes em vir nos agradar, em fazer o que podem por nós. No entanto, assim que perdemos nossa riqueza, jamais iremos ver seus rostos outra vez. Eles virarão a cabeça para o outro lado e se afastarão. Vemos, então, que é muito difícil, se não impossível, agradar a todos os seres viventes neste mundo.
Até o próprio Buda disse que os ensinamentos budistas, que são perfeitos sob todos os aspectos, são também criticados pelos outros. Até no tempo do Buda, as pessoas também o criticavam. Assim, se tivermos a idéia de que queremos fazer felizes a todos, e queremos que todos nos olhem com admiração e que estejam contentes conosco, este será um grande engano. É porque nunca conseguiremos satisfazer as mentes de cada um neste mundo, pois são tão diferentes e estão sempre a buscar as coisas mais diversas para si próprias.
Uma vez, Devadatta, primo do Buda e também seu grande inimigo, ficou muito doente e à beira da morte. O Buda foi abençoá-lo e, devido a essas bênçãos, ele conseguiu superar a doença. Quando se recuperou, disse ao Buda que ele era um médico muito competente, pois conhecia muito bem a medicina e, por esta razão, conseguiu ajudá-lo. Disse-lhe, também, que quando ele, o Buda, ficasse velho, nunca teria dificuldade em obter alimento. Com estas palavras, ele estava, na verdade, mostrando um grande desrespeito pelo Buda.
Também no tempo do Buda, havia um homem de nome Legpekarma que disse ao Buda que havia um mestre jainista que havia obtido o estado da onisciência e que não havia, além deste, ninguém no mundo inteiro que tivesse esta qualidade. Então o Buda lhe disse que esse mestre jainista que ele dissera ser onisciente ia morrer de indigestão dentro de sete dias. Quando Legpekarma voltou ao mestre jainista e lhe contou o que o Buda dissera, disse que era melhor que ele comesse muito pouco durante os próximos sete dias para provar que o Buda estava errado. Assim o mestre jainista quase não comeu nada durante seis dias. No entanto, ele se enganou nos cálculos, e pensou que o próximo dia, que era na realidade o sétimo, fosse o oitavo dia. Fez, então, uma boa refeição no sétimo dia e morreu de indigestão, renascendo como um espírito ávido.
O mestre jainista renascido como espírito ávido encontrou Legpekarma e disse-lhe que aquilo que o Buda havia dito era realmente muito extraordinário. O Buda é que era onisciente, e Legpekarma deveria desistir de sua descrença no Buda e ir buscar suas bênçãos e tomar refúgio no Buda. Mas Legpekarma continuava a resistir a esta idéia. Mais tarde, quando encontrou o Buda, disse-lhe que estava errado ao dizer que o mestre jainista iria morrer, porque o mestre jainista não morrera. O Buda respondeu que o mestre jainista não só tinha morrido nos sete dias como também o próprio Legpekarma havia falado com o homem morto. Legpekarma disse que o Buda estava enganado quanto ao fato de o mestre jainista haver renascido como espírito ávido, porque ele renascera em um dos reinos celestes. O Buda, então, perguntou-lhe quem era o espírito ávido com quem Legpekarma acabara de falar e que lhe dissera que ele deveria vir até o Buda e ter fé.
Nesta hora Legpekarma compreendeu que o Buda realmente possuía um estado de onisciência. Ficou, de fato, muito embaraçado e envergonhado com sua tentativa de enganar o Buda. Entretanto, embora ele compreendesse que o Buda tinha a qualidade da onisciência e pudesse realmente ver o futuro e o estado dos demais seres, mesmo assim ele ainda não teve fé no Buda. Apesar de ter visto o poder do Buda, ele foi-se embora. Então, embora o Buda seja completamente onisciente e um ser perfeitamente iluminado, ainda assim ele não pôde satisfazer a todos os seres viventes neste mundo.
O Buda também disse que nós não deveríamos ter apego sequer por nossos entes queridos, por nossos pais ou parentes próximos. Isto, porque um dia teremos que nos separar deles. Teremos que deixar esta vida sozinhos. Ninguém pode nos ajudar, nem mesmo aqueles que nos ajudaram nesta vida. Da mesma forma, não é conveniente ter ódio ou raiva dos inimigos, porque na verdade, neste mundo, todos estão sempre mudando. As coisas mudam a todo momento, até, às vezes, nossos amigos e entes queridos podem tornar-se nossos inimigos, e isto também pode ocorrer na próxima vida. As coisas estão sempre mudando.
A história que se segue ilustra esta questão de que tudo muda. Havia um casal que tinha uma filha. Então, o casal morreu, deixando a filha. O marido renasceu como peixe, e a esposa renasceu como cachorro. Uma vez, a filha estava sentada à beira da estrada comendo um peixe e, enquanto comia, aproximou-se um cachorro e tentou tirar-lhe um osso. Ela mordeu [o peixe] e chutou o cachorro. No colo, ela segurava um bebezinho junto a si.
Lá estava ela, sentada, abraçando bem o bebê, mastigando o peixe e ao mesmo tempo espantando o cachorro, quando um Arhat veio passando. Ele olhou para todos e, por conta de sua compreensão das coisas do mundo, sacudiu a cabeça e disse que o mundo era mesmo um lugar muito estranho. A mulher estava comendo seu pai, batendo em sua mãe e sentada com seu inimigo no colo. Então sob este ponto de vista, podemos ver que o apego aos outros nesta vida não é uma coisa que nós devamos praticar.

APEGO ÀS COISAS – O segundo tipo de apego é o apego aos objetos ou artigos nesta vida. Para obter as coisas nesta vida, diz-se que se pratica a não-virtude e também que se vai ao encontro de dificuldades. Em todas as três fases da aquisição das coisas – a fase de tentar obtê-las, a fase de tê-las obtido e depois a fase de perdê-las – o sofrimento está sempre envolvido. Por exemplo, no tempo em que se tenta acumular riqueza, temos que desempenhar uma quantidade de tarefas difíceis. Nós realmente sofremos para nos empenharmos em muitas ações não-virtuosas para acumulá-la. Às vezes, temos até que falar de uma forma ruim ou violenta. Nós até enganamos os outros ou nos prevalecemos deles. Então, sob todos os pontos de vista, no processo de acumular riqueza, estamos criando muitas imperfeições e neste processo não temos condições de praticar o dharma. Além disto, mesmo aqueles que nos são próximos, como nossos próprios parentes, podem tornar-se nossos inimigos e nossos inimigos podem tornar-se ainda maiores inimigos. Mesmo aqueles que não conhecemos podem tornar-se nossos inimigos.
Então, quando já obtivemos esses objetos, temos o sofrimento do medo de que os vamos perder. Temos, então, que protegê-los de muitas formas que criam sofrimento. Nossa preocupação de tentar proteger nossas posses torna-se tão grande que nos tornamos escravos dos objetos que desejamos. Então, em vez de possuí-los, eles começam a nos possuir. Temos que trabalhar para eles. E também, quanto queremos nos assegurar de que somos capazes de protegê-los e de mantê-los, tornamo-nos escravos das outras pessoas. Assim, estamos sempre empenhados em diferentes tipos de sofrimento. E também, pelo fato de tentarmos proteger as coisas que obtivemos, mais uma vez criamos muitos inimigos. Temos medo de que os outros possam tentar tomar nossas posses, e achamos que eles estão contra nós. Pelo fato de sempre tentarmos proteger as coisas que temos, criamos tantos maus pensamentos e más ações que isto cria grandes imperfeições e resulta em um mau renascimento.
Também, no momento de perder um objeto, temos um grande sofrimento, porque na hora de perdê-lo não conseguimos praticar qualquer ato virtuoso, o que exaure, dessa forma, nossa fonte de virtude. Tornamo-nos, também, muito infelizes e contrariados com os outros. Criamos raiva e ódio em nossa mente e, por conseguinte, mais imperfeições, sofrimento e atos não-virtuosos são criados. Assim, sob todos os pontos de vista, a perda de um objeto é um estado de sofrimento.
No entanto, isto não significa que tenhamos que nos livrar de tudo que possuímos. Os objetos que temos, por si próprios, não são um problema. O problema está em nosso apego a eles, e é este apego que precisamos superar. Assim, você não tem que jogar fora a chave do seu carro e tomar um ônibus para voltar para casa. Da mesma forma, se você é apegado a outros seres viventes, isto não significa que haja algo de errado com eles. O problema está em seu apego a eles. Não há nada de errado com as outras pessoas enquanto tais, você não precisa se preocupar com elas. Mas o seu apego a elas precisa ser diminuído ou destruído. Igualmente, temos que diminuir ou destruir nosso apego aos objetos que possuímos nesta vida. Diminuir ou destruir nosso apego a eles irá nos ajudar a superar nossa mente dispersa.
Quando se pergunta se nós podemos obter alguma felicidade com as posses que temos neste mundo, diz-se que as posses que obtivemos irão trazer-nos uma pequena quantidade de felicidade, mas os problemas que surgem são muito grandes. É igual a quando pomos mel sobre o gume de uma faca muito afiada e passamos a faca em nossa língua para tirar o mel. O sabor do mel é agradável, embora seja muito pouco em comparação com o fato de termos nossa língua sendo decepada. Da mesma forma, nosso apego aos diversos objetos ou pessoas neste mundo nos dá um pouco de felicidade, e junto com ela também nos dará um grande sofrimento. Nagarjuna disse que se temos áreas com forte prurido em nosso braço, ao coçá-las sentimos algum prazer. Vamos nos sentir muito bem coçando-as. Existe uma felicidade que surge daí. No entanto, se não havia, de início, um prurido, o prazer é muito maior. Da mesma forma, se temos apego a objetos e a pessoas, a felicidade que surge é muito pequena. Mas se não tivermos apego desde o início, a felicidade que surge daí será maior.

2. O antídoto com relação ao resultado:

Métodos para superar a Dispersão Diretamente

Encontram-se a seguir os métodos que tratam da dispersão diretamente. O método para superar uma mente dispersa é uma mente de concentração. Em outros termos, a meditação da concentração é o antídoto para superar a mente dispersa.
Existem três aspectos diferentes da meditação da concentração:

Meditação da Concentração Mundana – Com respeito à meditação da concentração mundana, há sete aspectos preparatórios ou preliminares e então, por cima destes, existem os quatro estados de dhyana e também os quatro estados do reino sem-forma. Em outras palavras, existem quatro estados de meditação que surgem do reino da forma e quatro estados de meditação que surgem do reino sem-forma.

Meditação da Concentração Hinayana – Do ponto de vista Hinayana, antes de tudo é necessário meditar sobre a natureza de sofrimento deste mundo de existência. E então, por cima disto, meditar sobre a concentração e então meditar sobre a sabedoria do insight. Da sabedoria do insight a meditação é expandida para incluir o que é conhecido como os trinta e sete fatores de iluminação.

Meditação da Concentração Mahayana – Na tradição Mahayana há duas tradições que são ensinadas – a tradição da Apenas-Mente (Mind-Only) que foi ensinada de acordo com o grande mestre indiano Asanga, e a tradição do Caminho do Meio (Middle-Way) que foi ensinada por Nagarjuna e Aryadeva e mais tarde por Shantideva. A explicação a seguir está de acordo com a tradição do livro de Shantideva, O Bodhicaryavatara.

Meditação da Concentração Segundo a Escola do Caminho do Meio (Middle-Way)
Segundo a escola do Caminho do Meio (Middle-Way), como está explicado no Bodhicaryavatara, diz-se que o método Mahayana para praticar a meditação é meditar diretamente sobre o pensamento da iluminação. Entretanto, para produzir o pensamento da iluminação de modo adequado, é necessário meditar sobre a bondade-e-amor e a compaixão. Embora não se ensine no Bodhicaryavatara que a pessoa medite primeiro sobre a bondade-e-amor e a compaixão, é necessário fazê-lo para que se produza o pensamento da iluminação.

MEDITAÇÃO SOBRE A BONDADE-E-AMOR – Quando meditamos sobre a bondade-e-amor, devemos pensar a respeito do objeto sobre o qual devemos meditar a bondade-e-amor. O objeto deve ser alguém que não possua a felicidade completa. Neste mundo, ninguém possui a felicidade completa, exceto o Buda totalmente iluminado. Além dele, todos os demais seres viventes neste mundo têm alguma forma de sofrimento. Assim, nossa meditação sobre a bondade-e-amor deve ser dirigida aos seres viventes neste mundo que não têm a felicidade completa. Quando meditarmos sobre a bondade-e-amor, o que devemos fazer é meditar sobre alguém por quem temos um grande amor e então igualar todos neste mundo a essa pessoa.
Por exemplo, se usarmos nossa própria mãe como nosso objeto de meditação, criamos uma idéia de bondade-e-amor para com ela, e então devemos pensar também que todos os seres viventes são parecidos com nossa própria mãe. Ou então, se você usar seu próprio filho, seu irmão, irmã ou alguém por quem você tem um amor especial como objeto de meditação, você cria uma idéia de bondade-e-amor para com esse filho, e então você torna todos neste mundo iguais a seu próprio filho.
Bondade-e-amor significa que a pessoa sobre a qual você está meditando deveria ter a felicidade e as causas da felicidade. A felicidade que eles devem obter deveria ser a felicidade que é livre de todas as imperfeições e livre, também, de todas as não-virtudes. Este tipo de felicidade é o tipo puro de felicidade. Possuir as causas da felicidade significa ser livre da prática de atos não virtuosos que são a causa da infelicidade.
Além disto, eles deveriam ter grande felicidade ou grande virtude. A grande virtude, neste caso, significa não apenas uma ação que seja livre de imperfeições, mas também uma ação que envolva a motivação Mahayana de trabalhar pelo bem dos seres sencientes. Nós meditamos que esta pessoa ou todos os seres sencientes que visualizamos à nossa frente obtenham este estado de felicidade e as causas da felicidade até o tipo de felicidade obtido pelo Buda completamente iluminado.
O próprio Buda disse que os benefícios que emanam da meditação sobre a bondade-e-amor são muito vastos e extraordinários. Diz-se que se nós pegássemos muitos mundos cheios de jóias e os oferecêssemos aos seres iluminados, haveria muitos méritos acumulados por este tipo de oferenda. Entretanto, maior ainda que esta oferenda é um momento de meditação sobre a bondade-e-amor. Desta forma, a bondade-e-amor tem os grandes benefícios de acumular mérito e também de beneficiar a si próprio e aos outros.

MEDITAÇÃO SOBRE A COMPAIXÃO – Em segundo lugar, devemos meditar sobre a compaixão. Em primeiro lugar, devemos compreender quem deve ser nosso objeto de meditação sobre a compaixão. Segundo o ensinamento de Maitreya, ele disse que há dez diferentes objetos sobre os quais podemos meditar a compaixão:
Aqueles que têm grande desejo ou grande apego aos outros.
Aqueles que praticam a virtude, mas que são obstruídos em sua prática da virtude. Por exemplo alguém que está tentando praticar o dharma, mas que está tendo muitos obstáculos, como ser perturbado por espíritos ou simplesmente não conseguir acumular as virtudes que decidira realizar.
Aqueles dos reinos inferiores que têm sofrimentos muito grandes.
Aqueles que têm grande ignorância. Por exemplo, aqueles que estão sempre praticando a não-virtude, como alguém que mata galinhas.
Aqueles que pensam que este mundo de existência irá trazer-lhes a felicidade e contam com ele para lhes trazer a felicidade.
Aqueles que trilham o caminho errado, o tipo de caminho religioso ou filosófico que não terá condições de ajudá-los.
Aqueles que, tendo obtido os estados de samadhi ou estados muito profundos de meditação, criam grandes obstáculos para si mesmos devido a seu apego àquilo que atingiram.
Aqueles que praticam, por exemplo, o caminho errado e pensam que já obtiveram o estado de liberação, quando, na realidade, não o obtiveram.
Aqueles que estão trilhando o caminho Hinayana.
Os Bodhisattvas que não realizaram as duas acumulações de mérito e sabedoria.
Maitreya também explicou que uma outra maneira pela qual podemos descrever o objeto sobre o qual meditamos a compaixão está em relação com as seis classes de pessoas que estão em oposição às seis perfeições. Assim, a respeito da perfeição de dar, aqueles que são avarentos e que são uma obstrução à perfeição de dar tornam-se nossos objetos de meditação sobre a compaixão. Podem, da mesma forma, ser nossos objetos de meditação sobre a compaixão aqueles que quebram seus votos de disciplina, aqueles que têm raiva, aqueles que são preguiçosos, aqueles que têm mentes muito dispersas ou muito agitadas, e, por fim, aqueles que são ignorantes.
Maitreya também disse que nós podemos combinar os objetos ou nossa meditação sobre a compaixão em dois grupos. O primeiro grupo consiste naqueles desta existência mundana e o segundo consiste naqueles que se situam no extremo do nirvana. Em outras palavras, aqueles da tradição Hinayana que lutam para obter sua liberação pessoal e ainda não a alcançaram e que não são capazes de trabalhar pelo bem dos demais seres sencientes. Meditamos sobre eles como objetos da compaixão, pois eles têm grande dificuldade para atingir o estado de total e perfeita iluminação de um Buda.
Dentro do primeiro grupo, podemos também dividi-los em duas categorias:
A primeira categoria compreende aqueles que estão criando as causas de sofrimento futuro – por exemplo, aqueles que estão praticando grandes ações não virtuosas para acumular riqueza ou para obter felicidade para si mesmos. Agindo desta maneira inadequada, eles estão criando as causas de sofrimentos futuro. Na próxima vida ou em uma vida futura, estes irão nascer definitivamente no reino mais baixo. Então, são suas ações que estão criando a causa do sofrimento futuro. Este é um grupo de pessoas sobre as quais meditamos a compaixão.
A segunda categoria compreende aqueles que têm o resultado do próprio sofrimento. Isto consiste naqueles que estão manifestamente experimentando o sofrimento neste momento. Por exemplo, aqueles que estão nos reinos inferiores como os infernos, e mesmo aqueles dos reinos mais elevados, como o reino dos humanos. Entre estes, incluem-se aqueles que são pobres, ou que têm grande sofrimento de medo, como o medo da doença ou da velhice, ou que estão separados das coisas junto das quais eles desejam estar, ou aqueles que desejam estar separados das coisas que estão junto a eles. Em outras palavras, aqueles que estão passando por más condições ou por sofrimentos. Este é um outro grupo de pessoas sobre as quais meditamos a compaixão.
Com relação ao método para criar a compaixão, diz-se que a compaixão surge como resultado de se ver o sofrimento. Ao vermos, repetidamente, os outros seres em estado de sofrimento, e sobre isto meditarmos, a compaixão por eles irá surgir dentro de nossa mente. O que devemos fazer é examinar com cuidado o estado de sofrimento dos outros, ver como os outros caíram nos três diferentes tipos de sofrimento, que são o sofrimento do sofrimento, o sofrimento da mudança e o sofrimento da natureza condicionada de que está impregnado este mundo. Além disto, podemos confiar em um mestre espiritual que nos dê ensinamentos sobre os métodos de produzir a compaixão. Quando virmos os vários estados de sofrimento, meditarmos sobre isto, e, ao mesmo tempo, recebermos o maior número de ensinamentos que pudermos por parte do amigo espiritual, aí, então, será fácil produzir o pensamento da compaixão. Se, antes disto, já produzimos o estado da compaixão em nossa mente, seja na vida anterior ou nesta existência, será, desta vez, bem fácil produzir em nossa mente um pensamento de compaixão.
O método para meditar sobre a compaixão é, antes de tudo, igualar todos os seres a alguém por quem você tenha um grande amor, seja sua própria mãe, seu próprio filho ou alguém muito próximo a você. Então, usando-os como objeto de sua meditação, você produz, com relação a eles, uma mente de compaixão. É necessário usar alguém por quem você tenha um grande sentimento porque quando você pensa em alguém que traz à sua mente sentimentos de felicidade, é mais fácil produzir um pensamento de compaixão por ele. Se você tentar meditar sobre seu inimigo, ou sobre alguém que esteja em um estado muito ruim, você pode sentir aversão ao vê-lo, porque você pode não gostar de sua aparência. Assim, para começar, você não conseguirá criar uma mente de compaixão.
Compaixão significa produzirmos um pensamento de que eles sejam livres de todo sofrimento e das causas do sofrimento. As causas do sofrimento significam a produção de imperfeições e também de não-virtudes. As imperfeições e as não-virtudes são produzidas pelo apego ao eu, visualizando o eu como sendo real. Então formulamos, neste ponto, o desejo de que “todos os seres sencientes sejam livres de sofrimento, e especialmente que sejam livres deste apego ao ego ou a um eu, que é a causa real de todos os demais sofrimentos.”
Com relação aos benefícios de se praticar a compaixão, o Bodhisattva Avalokiteshvara, em um dos sutras, perguntou ao Buda qual é a única prática do darma que pode ser igualada a todas as práticas juntas. O Buda respondeu que o único dharma que devemos praticar e que é, realmente, a combinação de todas as práticas do dharma postas em conjunto, é a prática da grande compaixão. Por meio desta única prática, todos os ensinamentos budistas são praticados juntamente. Como a compaixão é tão grande que foi até ensinada pelo próprio Buda, diz-se que sempre que praticarmos o dharma, esta prática deve ser, em todos os momentos, impregnada pela compaixão, em seu início, em seu meio e em seu fim. A compaixão é a fonte, a essência real de todo o caminho.

MEDITAÇÃO SOBRE O PENSAMENTO DA ILUMINAÇÃO – A seguir, meditamos sobre o pensamento da iluminação. O pensamento da iluminação é meditado de duas maneiras:

A NATUREZA IDÊNTICA DE SI-PRÓPRIO E DOS OUTROS - Com relação à meditação sobre a natureza idêntica de si-próprio e dos demais, você deve pensar que “eu mesmo trarei felicidade a todos os seres vivos neste mundo”, e também “eu mesmo libertarei todos os seres sencientes de todo o sofrimento neste mundo.” E quando qualquer felicidade chegar a você, você deve pensar, “que todos os seres sencientes obtenham o mesmo tipo de felicidade que agora obtive.” Sempre que tivermos qualquer tipo de sofrimento, pensamos, naquele momento: “que todos os seres sencientes sejam livres deste tipo de sofrimento pelo qual estou passando agora.” Desta forma, então, igualamo-nos a todos os seres sencientes, para levar-lhes felicidade e para libertá-los do sofrimento. Esta idéia da natureza idêntica de si-próprio e dos outros deve ser objeto de meditação repetida, até tornar-se um pensamento muito forte. No momento em que estivermos muito acostumados com a idéia de igualarmo-nos ao outros, aí, então, podemos começar a meditar sobre trocarmo-nos com os outros.

TROCANDO-SE COM OS OUTROS – Podemos meditar sobre a troca de nossa própria felicidade pelo sofrimento dos outros de duas maneiras, através de um método extensivo e através de um método curto.
O MÉTODO EXTENSIVO – Geralmente, quando vemos pessoas que são superiores a nós, ficamos com inveja delas. Pensamos que elas nos tratam mal, que elas não têm compaixão por nós, que elas nos olham com desprezo. Pensamos que elas nos criticam e nos apontam muitas falhas. Pensamos que a única razão pela qual elas fazem isto é porque pensam que são maiores do que nós. Desta maneira, então, criamos inveja daqueles que estão acima de nós. Com relação àqueles que estão ao nosso mesmo nível, temos um grande sentimento de competição. Pensamos que, pelo fato de estarem estas pessoas no mesmo nível que nós, precisamos competir com elas de todas as maneiras possíveis, de modo que elas nunca possam se tornar maiores do que nós. Com relação àqueles que estão em nível inferior a nós, criamos um grande sentimento de orgulho pelo fato de eles serem inferiores e não deverem ser objeto de nosso trato igualitário. Nós os desprezamos de muitas e diversas formas. Desta maneira, com relação àqueles que estão acima de nós, no mesmo nível que nós, ou abaixo de nós, criamos o pensamento da inveja, da competição e do orgulho, respectivamente.
Para praticarmos a meditação da troca, de trocarmos a nós mesmos pelos outros, temos que inverter ou que abandonar este tipo de pensamento para com estas três categorias de pessoas. Com relação àqueles de quem temos inveja, o método é trocarmos nossa posição com a da outra pessoa, de modo a nos colocarmos na posição superior e colocar a outra pessoa, que estava acima de nós, na posição mais baixa. Feito isto, você cria, então, inveja para com esta outra pessoa que é, na verdade, nós mesmos. Quando virmos as más conseqüências que isto cria, teremos vontade de desistir da idéia e de trocá-la, no sentido de que, em vez de termos inveja, desejaríamos afastar a inveja para longe daquela pessoa.
Com relação àqueles a quem sempre dirigimos nosso orgulho, trocamos de posição com a pessoa em nível inferior. Tornamo-nos, nós mesmos, a pessoa que está abaixo, e colocamos acima de nós a pessoa que estava abaixo, e que irá desprezar-nos com orgulho. Da mesma forma que teríamos orgulho ao olharmos com desprezo para esta outra pessoa, é ela, agora, quem nos está olhando com desprezo.
Com relação àqueles que estão em nosso mesmo nível, aqueles com quem estamos sempre competindo, trocamos de posição com eles. Começamos, então, a competir conosco. Desta maneira, você irá tentar beneficiar a outra pessoa, porque você estará pensando nos benefícios à outra pessoa como sendo seus próprios. Todo este método de se trocar com os outros em relação aos três tipos de pessoas – as superiores, inferiores e aquelas ao mesmo nível que nós – está explicado em detalhe no oitavo capítulo do Bodhicaryavatara.

O MÉTODO CURTO – O método de trocar-se com os outros em uma forma abreviada é pensar que toda a felicidade e a virtude que você tem é dada a todos os seres vivos neste mundo, e que todo o sofrimento, a não-virtude e a infelicidade que todos os demais têm neste mundo você toma para si. Você formula o desejo de “que toda a minha felicidade e virtude frutifiquem sobre os outros” e “que todo o sofrimento, infelicidade e não-virtude dos outros frutifiquem sobre mim.” Se você assim fizer, isto realmente cria uma grande meditação de troca de si com os outros. Diz-se que o mérito que surge disto é incrivelmente vasto. Nagarjuna disse que se nós pudermos dar uma forma, ou um formato, ao mérito que surge quando se pensa nesta troca de si com os outros ainda que por um só momento, diz-se que que seria ainda maior do que o céu dos três reinos de existência.
O método para realizar esta meditação sobre o pensamento da iluminação significa que continuamos a meditar repetidamente sobre este pensamento de sempre dar nossa felicidade e nossos benefícios aos outros de modo a que possamos dar-lhes um estado de total e perfeita iluminação. E, enquanto isto, nós também lhes conferimos todas as formas de felicidade em seu caminho para a iluminação, e desejamos que todo o sofrimento dos outros sempre frutifique sobre nós.
Quando meditarmos repetidamente sobre este pensamento de trocar-nos com os outros, seremos capazes de realizar a verdadeira meditação do pensamento da iluminação. Para realizar isto, é sempre necessário ver as falhas de se trabalhar apenas em seu próprio benefício, e compreender o grande benefício de trabalhar pelo bem dos outros. Quando compreendermos as falhas que emanam do fato de se buscar apenas beneficiar a nós mesmos e os benefícios que emanam do fato de se trabalhar pelos outros, isto irá nos ajudar a criar o pensamento da iluminação e também nos permitirá que realizemos esta meditação.
Para assegurar que o pensamento da iluminação não se altere, devemos examinar com muito cuidado o verdadeiro propósito e o benefício em que ele se baseia. Veremos que, por muitas e muitas vidas, estivemos trabalhando apenas em nosso próprio benefício, sem nunca pensar em beneficiar quaisquer outros seres viventes, e durante esta vida, a única coisa que ganhamos são os vários e diversos tipos de sofrimento. Toda a felicidade que estivemos sempre a buscar, nunca a conseguimos obter. Enquanto continuarmos a trabalhar somente pelo nosso próprio bem, buscando a nossa própria felicidade, jamais conseguiremos ganhar aquela felicidade que pensamos que poderíamos obter. Em vez disto, ganhamos apenas mais e mais sofrimento. Quando compreendermos que é apenas através do trabalho pelo benefício dos outros que podemos obter qualquer estado verdadeiro de felicidade, iremos compreender o propósito do pensamento da iluminação.
O que devemos fazer para estabilizar o pensamento da iluminação é sempre examinar o estado de nossa mente. Em outras palavras, devemos criar um espião dentro de nós mesmos para ver o que estamos fazendo. Assim, quando nos examinarmos com toda atenção e descobrirmos que temos algo que possa beneficiar os outros, devemos abrir mão disto e dá-lo a eles. Caso se crie a avareza, em que pensamos que o queremos para nosso próprio bem, devemos arrancar nossa avareza, porque sabemos que, assim fazendo, podemos beneficiar os outros.
Também quando estamos com inveja, devemos superar este pensamento de inveja para com os outros. Por exemplo, quando pensamos que alguém tem muito mais felicidade do que nós, o que devemos, então, fazer para superar isto é voltar esta inveja contra nós mesmos, em vez de dirigi-la à outra pessoa. Devemos pensar: “estou feliz demais, tenho felicidade demais em comparação com os outros, sou superior aos outros.” O que fazemos então é criar um pensamento de inveja para com a nossa própria superioridade e nossa própria felicidade em vez de dirigi-la aos outros.
Devemos, também, examinar e questionar a nós mesmos para ver o que estamos fazendo. Por exemplo, devemos perguntar-nos se o que estamos fazendo através de nosso corpo, nossa voz e nossa mente está-nos enviando para baixo, para o reino inferior, ou se estamos indo no caminho errado. Assim, você se questiona para ver como você está atuando neste mundo.
Você deve, também, perguntar-se para ver se está ou não praticando de modo adequado. Se alguém lhe faz um mal, você não deve pensar que este mal é causado por uma outra pessoa. Em vez disto, você deve pensar que o sofrimento que você está experimentando se deve a seu próprio carma e não ao mal que foi feito por uma outra pessoa. Quando você está fazendo alguma coisa contra os outros, naquele momento você deve pensar: “estou fazendo uma coisa que não é certa.” Examine-a com muito cuidado, e declare em voz alta para si mesmo ou para os outros que você cometeu um erro, de maneira a que você possa se deter.
Da mesma forma, então, se alguém o elogiar, e mesmo que o elogio seja verdadeiro, o que você deve fazer é trocar suas próprias qualidades com aquelas dos outros. Assim, em vez de produzir um pensamento de orgulho pelas qualidades que você tem, você deve pensar em dar suas qualidades aos outros e tomar para você as qualidades dos outros, embora sejam inferiores às suas. Você deve pensar que suas próprias qualidades pertencem, na verdade, às outras pessoas, e suas qualidades menores pertencem a você.
Mesmo que você tenha certas qualidades que sejam especiais, você deve pensar que as qualidades não são permanentes. Este é um método para destruir qualquer orgulho que possa surgir pelo fato de se ter alguma qualidade. Acima de tudo, você não deve exibir suas qualidades como uma exposição, mas em vez disto você deve esconder suas próprias qualidades. Você não deve se tornar orgulhoso das qualidades que você tem.
Em suma, vemos que todo o sofrimento que temos neste mundo se deve ao fato de tentar obter felicidade e benefícios somente para nós mesmos, e que nós sempre fizemos isto através do amor-a-si-próprio. O único benefício que já obtivemos através deste grande esforço foi sempre o nascimento dentro destes seis reinos de existência. Agora, então, se nós realmente desejamos obter o estado de Buda, o único método para fazê-lo é trabalhar pelo bem dos outros. Assim, deixando de lado todo o nosso amor-a-si-próprio e começando, em vez disto, a ter amor pelos outros como a nossa própria pessoa, seremos capazes de realizar este caminho e seremos realmente capazes de ganhar benefícios não apenas para nós mesmos, mas também para os outros.
Segundo os tibetanos, a palavra “meditação” significa habituar-se. Significa tomar alguma coisa e torná-la um hábito, habituar ou acostumar nossa mente a um certo modo de pensar. Por exemplo, se nós nos habituarmos com a idéia do pensamento da iluminação, ele se torna, então, uma realidade em nossa mente. Ele se torna uma tendência habitual. Disse, também, o Buda que ainda que tomássemos apenas um verso de seus ensinamentos, e nos aplicássemos de forma total a estudá-lo, contemplá-lo e meditar sobre ele, ele iria tornar-se uma tendência habitual e nós conseguiríamos realizar seus ensinamentos, mesmo por meio de um só verso.
Para realizar a verdadeira meditação da concentração, para que ela se torne uma perfeição verdadeira em nossa mente, temos que realizar as quatro qualidades daquela prática assim como abandonar os sete apegos, que criam obstáculos a ela.
Quando examinamos os benefícios da meditação, vemos que há benefícios nesta vida assim como nas vidas futuras. Nesta vida, através da realização da meditação:
Seremos capazes de colocar a mente em um estado unipolarizado de concentração.
Seremos capazes de superar as imperfeições mais grosseiras do desejo, do ódio e da ignorância, o que é como separar, com um corte, a cabeça do corpo, embora não sejamos capazes de destruir a raiz das imperfeições.
Seremos capazes de estabilizar nossa mente, diminuir a agitação de nossa mente.
Seremos capazes de igualar todos os oitos dharmas mundanos, como os pensamentos de felicidade ou tristeza, ganho ou perda, etc. Nunca teremos qualquer pensamento de querer algo às custas dos outros. Em vez disto, veremos tudo dentro de um estado de equanimidade. Por exemplo, a maioria de nós geralmente tem esperanças de ganhar alguma coisa, ou medo de perder algo. Através da realização da meditação, todas estas esperanças e medos são igualados, e nós não somos levados a diferentes extremos. Em vez disto, a mente é posta no estado de equanimidade.
Podemos levar felicidade ao nosso corpo e alegria a nossa mente.
Podemos obter vários estados de poder mágico como voar no céu, conhecimentos sobrenaturais como ler a mente dos outros, e diferentes estados de consciência sobrenatural, ou consciência superior.
As pessoas irão gostar muito de nós.
Para a vida futura, devido à realização da meditação nesta vida, teremos poderes miraculosos ou consciência sobrenatural. Será mais fácil atingir os diferentes estados de meditação ou samadhi.
No momento da realização do estado de Buda, as quatro purezas, que são algumas das qualidades do estado de Buda, irão surgir.
A pureza do corpo significa que o Buda totalmente iluminado pode, como e quando o desejar, assumir o nascimento neste mundo, ficar neste mundo e partir deste mundo.
A pureza do objeto significa que o Buda pode realizar diferentes poderes miraculosos ou feitos, para beneficiar os outros, como a capacidade de manifestar coisas que não existem e fazer com que desapareçam as que estão em existência. Ele pode, deste modo, realizar vários feitos para ajudar os outros.
A pureza da mente significa que o Buda é capaz de realizar todos os diferentes estados de samadhi que desejar.
A pureza da sabedoria significa que o Buda sabe completamente tudo que é conhecido neste mundo.

O VENERÁVEL KHENPO APPEY RINPOCHE recebeu seus primeiros treinamentos e educação monástica na província de Kham no Tibet Oriental, onde nasceu. Mais tarde mudou-se para o Mosteiro de Ngor no Tibet Central, onde continuou seus estudos. Foi o abade da Universidade de Dzongsar no Tibet Oriental antes de fugir para a Índia. Realizou vários retiros e deu muitos ensinamentos e iniciações. Fugiu do Tibet durante a invasão comunista e reside, desde então, na Índia, onde, até 1967, foi tutor de Sua Santidade Sakya Trizin. Ele e Sua Santidade Sakya Trizin foram as principais forças motivadoras para a fundação do Sakya College of Buddhist Philosophy em 1972 em Mossoorie, na Índia. Serviu como diretor e ensinou por muitos anos no Sakya College em Mussoorie, até mudar-se para o Nepal para dar início a um outro Sakya College em Boudhanath, no Nepal. É, hoje, o mais erudito Khenpo (Abade) vivo, e domina tanto o Sutra quanto o Tantra.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

FELIZ ANO NOVO LUNAR TIBETANO: O ANO DO CACHORRO DA TERRA!

FELIZ ANO NOVO LUNAR TIBETANO: O ANO DO CACHORRO DA TERRA!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

PARTINDO DOS QUATRO APEGOS: UM ENSINAMENTO BÁSICO



PARTINDO DOS QUATRO APEGOS: UM ENSINAMENTO BÁSICO

Sua Santidade Sakya Trizin

Historia do ensinamento
Nós começamos com uma breve história deste ensinamento. Quando o grande iogue, Lama Sakyapa, Sachen Kunga Nyingpo, tinha doze anos, um de seus gurus, Bari Lotsawa, recomendou-lhe: "Como você é o filho de um grande mestre espiritual, é necessário estudar o Dharma, e estudar o Dharma requer a sabedoria. A melhor maneira de adquirir a sabedoria é praticar Manjushri."
Assim, Bari Lotsawa concedeu a Sachen Kunga Nyingpo a transmissão de Manjushri com todos os necessários "lungs." Então Sachen Kunga Nyingpo mergulhou num retiro de seis meses de Manjushri. No início houve alguns obstáculos, que foram purificados com a prática da deidade irada Achala. Ele continuou sua meditação e depois, na sua pura visão, viu Arya Manjushri no mudra de prédiga, sentado num trono de jóias com dois atendentes. Ele recebeu imensa sabedoria naquele momento e Manjushri ofereceu este ensinamento de quatro linhas diretamente a Sachen Kunga Nyingpo:
“Se você deseja os objetivos mundanos desta vida,
não é uma pessoa espiritualizada;
Se você deseja a existência mundana,
não tem o espírito de renúncia;
Se você deseja liberação para a salvação de si próprio,
não tem atitude de iluminação;
Se você se apega à visão da realidade última,
Você não tem a visão correta.”
Estas quatro linhas de ensinamento inclui todo o caminho Mahayana. Depois de receber este ensinamento, Sachen Kunga Nyingpo obteve uma gigantesca quantidade de sabedoria. Ele não teve mais nenhuma necessidade de estudar tudo o que veio a ele. E se tornou um realmente grande iogue. Depois, em sua vida, ele ofereceu este ensinamento aos seus filhos, Sonam Tsemo e Dagpa Gyaltsen, e esses o passaram a Sakya Pandita, e assim por diante. Até hoje, sua transmissão nunca esteve quebrada. Traz então especial  bênçãos. Jetsun Dagpa Gyaltsen, o filho de Sachen Kunga Nyingpo, escreveu um comentário desses versos, para estas quatro linhas, e hoje este texto serve como o texto-raiz de todos esses ensinamentos.  
"Separando dos Quatro Desejos" é bem parecido aos ensinamentos preliminares de outras Tradições budistas. Por exemplo, os Nyingma e as tradições Kagyu usam um ensinamento "Virando a Mente" que também explica essas quatro linhas. Meditando nesta vida humana preciosa e na impermanência, você será liberado dos sofrimentos inerentes desta vida. O sofrimento de samsara e a lei de karma impedirá que você se apegue ao círculo de existência. Amor, compaixão e Bodhicitta o levarão para longe de agarrar esta vida como real. Nós Sakyapas chamam isto "A Separação dos Quatro Desejos", e Kagyu e tradições de Nyingma chamam isto "Virando a Mente para longe do Apego." O nome é diferente, mas o ensino é o mesmo. De acordo com a tradição de Gelugpa, o ensino preliminar é dividido em "Os Caminhos das Três Pessoas." A primeira linha explica o caminho da pessoa "pequena", - uma pessoa que percebe que os mais baixos reinos de existência estão cheios de sofrimento e deseja nascer nos reinos mais altos, como devas ou humanos. O caminho da pessoa mediana é um que busca a auto-liberação. Esta pessoa é descrita no segundo verso - ela percebe que o inteiro reino da existência está cheio de sofrimento, e então naturalmente busca a auto-liberação. A terceira linha explica o caminho da grande pessoa. Esta pessoa percebe que todo ser sensível tem a mesma meta, e que em vez de trabalhar para a si mesmo, a pessoa deveria trabalhar pela causa de todos os seres sensíveis de atingir o esclarecimento último. Ainda que o teor seja diferente, o ensinamento Gelugpa  é, não obstante, igual a estas quatro linhas que ensina o "Separar dos Quatro Desejos."  
Refúgio

Todas as práticas budistas começam com tomar refúgio. Neste ensinamento, a pessoa toma o refúgio Mahayana.

O Refúgio Mahayana tem algumas características especiais. Há quatro razões por que o refúgio Mahayana seja um pouco diferente do refúgio geral - em termos do objeto, do tempo, da pessoa e do propósito.


Refúgio Mahayana tem algumas características especiais. Há quatro razões por que o refúgio Mahayana seja um pouco diferente do refúgio geral - em termos do objeto, do tempo, da pessoa e do propósito.

1. O Objeto

Comum a todos os tipos de refúgio budista são o Buda, Dharma, e Sangha. Porém, a explicação desses três difere entre o Mahayana e o Budismo geral.
No Mahayana, o Buda é o que tem qualidades inimagináveis e que partiu de todas as faltas.
Ele é o que possui os três kayas, ou os três corpos: o Dharmakaya, o
Sambhogakaya e o Nirmanakaya. Dharmakaya significa que a mente dele é completamente purificada, e se tornou a pessoa com a última verdade. Onde sujeito e o objeto se torna uno é "Dharmakaya."
O Sambhogakaya vem de acumular quantidades enormes de mérito enquanto ainda no Caminho. Isso produz a forma mais alta de corpo físico que tem todas as qualidades e permanece no mais alto campo de Buda, conhecido como Akanishtha, e dá ensinamentos aos grandes Bodhisattvas.
Para ajudar seres sensíveis ordinários, sempre que e onde quer que precisar, os Buddhas aparecem sob qualquer forma requerida. Estas formas são o Nirmanakaya, ou em outra palavra, emanações. O Shakyamuni Buda histórico está entre os Nirmanakayas. Ele é chamado "O Nirmanakaya Excelente" porque até mesmo os seres ordinários puderam vê-lo como um Buda.
Todos os Buddhas que aparecem no mundo são formas de Nirmanakaya. Nesta prática nós tomamos refúgio no Buda que possui os três kayas. Esta é a explicação particular do refúgio Mahayana.

O Dharma, ou Ensinamento, é a grande experiência que o Buda e todos o Bodhisattvas mais altos alcançaram. A grande realização deles é o Dharma. Quando o que os Buddhas alcançaram é expresso para beneficiar seres sensíveis ordinários, isto também é chamado de Dharma.

Os que estão seguindo o caminho da iluminação e que já chegaram ao estado irreversível são a verdadeira Sangha. Esta Sangha consiste nos Bodhisattvas, de acordo com o Mahayana. O verdadeiro Buda, Dharma e Sangha, a Tríplice Pedra preciosa é o Buddha que possue os três corpos, o Dharma que expressa as realizações deles e seu ensino, e a Sangha de Bodhisattvas. A Pedra preciosa Triplice é simbolizada e representada nas imagens dos Buddhas, em todos os livros de ensinos e na Sangha ordinária de monges. Embora os nomes dos objetos de refúgio são o mesmo no Mahayana e no refúgio Geral, as suas qualidades são explicadas um pouco diferentemente no Mahayana.

2. O Tempo 
A segunda distinção entre o refúgio geral e o do Mahayana é o tempo.
No refúgio Geral, a pessoa toma refúgio para o futuro imediato. No Mahayana, a pessoa toma refúgio desde agora até a realização da iluminação última.
3. A pessoa 
No refúgio Geral, a pessoa toma refúgio para si mesmo.
No refúgio de Mahayana, a pessoa toma refúgio para a si mesma e para todos os seres sensíveis. A pessoa imagina que todos os seres sensíveis foram alguma vez, em vidas prévias, nossos próprios pais ou muito queridos. A pessoa busca refúgio para o benefício dos seres sensíveis ilimitados. 
4. O Propósito

No refúgio geral, alguém se refugia para ganhar auto-libertação. No Mahayana, é preciso refúgio para alcançar a iluminação tanto para si mesmo quanto para o bem de todos os seres conscientes.
Se alguém entender o objeto, o tempo, a pessoa e o propósito como descrevemos, realiza o refúgio Mahayana. Com essas qualidades em mente, também se deve recitar a oração de refúgio assim como o pedido aos objetos de refúgio para que concedam suas bênçãos.

Além disso, quando praticamos os ensinamentos, o grande Acharya Vasubandu disse que se alguém quiser praticar o Dharma, existem quatro requisitos. Os quatro são: conduta moral, estudo, contemplação e meditação. Uma explicação mais detalhada desses requisitos será
reservada para outro ensinamento.

Linha Um do Texto

A linha 1 do texto diz: "Se você deseja os objetivos mundanos desta vida, você não é uma pessoa espiritual".
O grande Jetsun Dagpa Gyaltsen explicou a primeira linha da seguinte maneira. Qualquer que seja a prática que você faz, se o seu objetivo é para o bem desta vida, não é religião; não é Dharma. Não importa o que
promete receber, não importa o quanto estuda, não importa o quanto faça a meditação, se for tudo por causa desta vida, não é Dharma. Se alguém deseja praticar o Dharma, é preciso começar por diminuir o apego a esta vida. Essa vida é temporal, é como uma miragem. Mesmo se você acha que a miragem é água real, ainda não vai apaziguar a sua sede. Qualquer tipo de conduta moral ou estudo ou meditação que você empreenda, se é por causa desta vida, não irá em última análise beneficiar você.
Para mudar sua intenção de não praticar Dharma para praticar o Dharma, você deve começar por meditar sobre a dificuldade de obter essa preciosa vida humana. A vida humana é rara em comparação com a de outras formas de seres conscientes, porque o corpo de um ser humano pode conter milhões de outros seres sencientes. Esta raridade é explicada de muitas maneiras diferentes - por exemplo, do ponto de vista de "causa", "números", "exemplo" e "natureza".

1. A causa

Para receber uma vida humana, e especialmente para receber uma vida humana que nasce em um lugar favorável e com as condições certas, é preciso ter uma boa causa. Tal causa deve ser a virtude excepcional para levar ao nascimento humano com todo as condições corretas. Nos três mundos, há muito poucos que praticam as coisas virtuosas, enquanto há enorme número de seres conscientes que se entregam a atos não virtuosos. Assim portanto, do ponto de vista da causa, a vida humana que tem todas as condições certas e é livre de todos os locais de nascimento errados é muito rara.

2. Número

Do ponto de vista dos números, os seres sencientes nos infernos, no reino dos fantasmas famintos
e no reino animal são incontáveis. Os seres nos reinos inferiores são tão numerosos quanto todos
os átomos e partículas de poeira deste mundo. Em comparação com estes, as vidas humanas são muito poucas, especialmente aqueles que têm as condições certas.


3. Exemplo

O ponto de vista do exemplo é explicado nos Sutras com a seguinte ilustração.
Suponha que o mundo inteiro é um grande oceano e, sobre este oceano, flutua um jugo de ouro, que tem um pequeno orifício nele. Debaixo do oceano está uma tartaruga cega que vem à superfície apenas uma vez a cada cem anos. O jugo dourado flutua na superfície, indo para onde quer que seja o vento sopra. Quando o vento vem do leste, ele vai para o oeste. Quando o vento vem do oeste, vai para o leste. Claramente, seria muito difícil para o pescoço da tartaruga cega entrar no buraco no jugo sob essas circunstâncias. A chance disso acontecer é muito rara. A vida humana, especialmente uma livre de todos os locais de nascimento errados e que tem todas as condições certas é ainda mais raro do que este exemplo. Então, de ponto de vista do exemplo, a vida humana é muito rara.

4. Natureza
O nascimento humano em que se pode ouvir e praticar os ensinamentos requer uma série de condições particulares. A "natureza" deste renascimento humano é explicada em termos de evitar renascer nos "oito lugares errados" e nascer com as "cinco condições". Os "oito lugares errados" em que é desfavorável renascer são os estados dos infernos, pretas, animais e deuses de longa vida, bem como existência entre os bárbaros, ou pessoas com ponto de vista errados. Da mesma forma, não se pode nascer onde os ensinamentos budistas não foram dados, ou com facultades prejudicadas - como ser pouco inteligente ou mentalmente retardado.
Há cinco condições favoráveis para o renascimento, que são, nascer em um lugar onde os ensinamentos têm sido dados, e onde monges e detentores de preceitos leigos ainda vivem, que não se entregarem aos cinco pecados ilimitados, e viver onde há fé plena no ensino em geral e no Vinaya em particular.
A pessoa também deve nascer num momento em que um Buda veio e quando ele girou a Roda do Dharma. O ensino ainda deve continuar e onde ainda há muitas pessoas que seguem o caminho e onde há pessoas que estão prontamente ajudando você a encontrar seu meio de vida certo. Essas circunstâncias dependem e devem ser obtidas dos outros.
Assim, estar livre das oito condições desfavoráveis e obter essas dez circunstâncias favoráveis é extremamente raro. Não é apenas raro, mas também muito precioso, porque através de uma vida como essa - não uma vida comum, mas uma vida humana que tem todas as condições corretas – pode-se estar livre de todos os sofrimentos do samsara. Não somente isso, até mesmo o objetivo mais difícil e o mais alto que poderíamos aspirar, a iluminação final, também é alcançada através da vida humana. Portanto, a vida humana é extremamente preciosa.
Não basta somente que a vida humana seja rara e preciosa, isso não é suficiente! Temos que praticar. Sem prática, apenas obter essa oportunidade tão preciosa não será suficiente.
Em nossas vidas passadas, É provável que tivéssemos muitas dessas oportunidades de prática, mas que desperdiçamos e não atingimos estados significativos. Então, a partir de agora, a menos que possamos praticar, ainda iremos permanecer em samsara.
Logo, quando temos uma oportunidade tão boa e uma vida preciosa, é muito importante praticar o Dharma.
O Buda ensinou que tudo é impermanente. Os três mundos são como uma nuvem no outono e o nascimento e morte de seres conscientes é como o movimento de um dançarino. A vida de uma pessoa é como faísca no céu, ou como uma cachoeira íngreme, que não para por um só momento, mas está constantemente correndo para baixo. Mesmo os Budas, que alcançaram um corpo permanente, para mostrar a impermanência aos seres sencientes também tiveram de deixar seus corpos. Assim sendo, não existe um único lugar onde a morte não ocorrerá. Há muitas mais causas para morte do que causas para viver. É um desejo comum que a morte nos deixe em paz, mas é claro que todos os seres acabam por enfrentar a morte. Tudo está a mudar.
Viver neste particular reino (nossas vidas no continente de "Jambudvipa") não tem uma duração fixa. Algumas pessoas morrem mesmo antes de nascer, alguns morrem assim que nascem, alguns morrem como bebês, alguns morrem em uma idade muito jovem. Embora possamos não ter problemas importantes hoje, nunca se sabe o que acontecerá, depois de uma hora ou mais tudo pode acontecer.
A menos que você pratique agora, se você pensa: "Por enquanto, vou trabalhar em outras coisas, então quando eu tiver mais velho eu praticarei o Dharma ", nunca se saberá se alguém terá essa oportunidade ou não. Portanto, é muito importante praticar agora! No momento da morte, nada pode ajudar você, não importa o quão poderoso é, não importa o quão inteligente, não importa o quão rico seja, nem quão corajoso você seja, nada pode ajudá-lo. Mesmo nosso corpo, que tivemos desde o dia em que fomos concebidos, e que nós cuidamos como uma coisa muito preciosa, e cuidamos muito, e pelo amor de que fazemos todo tipo de coisas - mesmo isso temos que deixar para trás. Nossa própria continuidade de mente então tem que ir sem qualquer liberdade de escolha. O único que pode ajudá-lo no momento da morte é o Dharma, as práticas que você aprendeu. Se você praticou o Dharma,  no momento da morte você conhecerá o caminho sem hesitação e, de fato, com total confiança você vai deixar seu corpo. A pessoa que pratica o Dharma não hesita em morrer, porque não se arrepende de não ter praticado. Este precioso corpo humano e esta preciosa vida humana é impermanente. A primeira linha, "Se você deseja para o mundo objetivos desta vida, você não é uma pessoa espiritual ", explica diretamente o que praticar que seja espiritual para você, se for destinado a esta vida, então não é Dharma e não irá beneficiar você. Essa é a explicação direta.
Indiretamente, explica as dificuldades de obter a preciosa vida humana e impermanência. Quando você tem entendimento claro por dentro dessas duas coisas, então você estará firmemente definido no caminho. Nesse sentido, mesmo que alguém tenta evitar que você pratique Dharma, não será possível para você parar.

Linha Dois do Texto
A linha dois é: "Se você deseja mais existência mundana, você não tem o espírito de renúncia".
Se alguém continuar a desejar nascer nos reinos humano ou deva (claro, ninguém quer nascer nos reinos inferiores porque os reinos inferiores estão cheios de sofrimento), a segunda linha corta isso fora. Explica que não só o ensino que você pratica não envolve apego a esta vida presente, mas também para ser livre do desejo de futuros nascimentos na roda da existência. Não só os reinos inferiores estão cheios de sofrimento; Nos reinos mais altos também, é tudo sofrimento. Nos três reinos inferiores (que são os infernos, fantasmas famintos e o reino animal), o que eles têm é chamado de "sofrimento do sofrimento". Os infernos têm muitas divisões, como os infernos quentes, os infernos semi-quentes, etc. Sempre que um nasce entre os infernos, tem uma quantidade inimaginável de sofrimento. Assim, o que os seres humanos experimentam é chamado de "sofrimento do sofrimento". No reino dos fantasmas famintos, também os seres têm uma tremenda quantidade de sofrimento ao não encontrar comida. Eles têm grande fome e sede por centenas e centenas de anos. Mesmo que encontrem comida, em vez de ajudar seus corpos, isso cria mais sofrimento. No reino animal, como todos nós vemos, os animais devem sofrer muitas coisas. A maioria dos animais não tem um único momento de relaxamento porque eles têm muitos inimigos entre os próprios animais. Além disso, os seres humanos estão caçando e pescando e trazendo todos tipo de sofrimento para eles. Geralmente, todos os animais sofrem grande ignorância, porque não têm nenhuma maneira de conhecer o Dharma. É muito fácil para nós perceber que os três reinos inferiores estão cheios de sofrimento.
Os três reinos mais altos às vezes são entendidos como tendo uma mistura de felicidades e sofrimento. No entanto, quando pensamos cuidadosamente nisso, podemos ver que não há nenhuma felicidade real nos reinos mais elevados. Mesmo no reino dos Devas, onde parece que esses seres têm uma vida maravilhosa, tudo é impermanente. Os Devas têm muito luxo em seu viver que eles nem sequer pensam em praticar o Dharma. Todas as suas vidas são passadas em prazer, de prazeres mundanos, então quando eles estão perto do tempo de sua morte, experimentam um particular sofrimento. Por exemplo, eles têm inteligência suficiente para poder ver onde eles vão renascer. E, como eles passaram toda a vida em diversão, muitos deles vão renascer nos reinos inferiores. Como eles podem conhecer essas coisas, os Devas experimentam sofrimento mental maior do que o sofrimento físico dos reinos inferiores. Mesmo os muito bons Devas, como Indra, o senhor dos Devas, pode renascer como um servo muito comum. E mesmo os grandes Devas cujos corpos podem iluminar o mundo inteiro, após a morte, renascerão em completa escuridão na qual eles não poderão ver a sua própria mão diante de seu rosto. No mundo humano, como nós já vimos, tudo está mudando. Os grandes imperadores se tornam pessoas muito comuns e os ricos se acham muito pobres. Geralmente, todos devem encontrar as quatro grandes montanhas de sofrimento: a morte, a velhice, a doença e o nascimento. Há muitos, muitos sofrimentos, como sempre ter medo de encontrar inimigos e sempre o medo de se afastar de seus amigos. As coisas que você deseja não acontecem e as coisas que você não quer que venham até você  se tornam realidade. Há quantidades inimagináveis de sofrimento que são principalmente do tipo chamado "o sofrimento da mudança". Nós sofremos pela própria razão de que tudo está mudando constantemente. No reino dos asuras ou demi-deuses, uma vez que eles experimentam um grande ódio e inveja em direção ao reino dos céus, eles encontram grande sofrimento em sua vida. Então, os devas, os humanos e os asuras experimentam o sofrimento da mudança.
Em seguida, há "o sofrimento dos agregados", que abrange todo o universo. Cada um de nós irá empreende um trabalho que nunca vamos terminar. Nossas vidas estão cheias de esforço contínuo. Nossas ações nunca terminam. Nesta grande, ocupada e mundana vida de atividades, um dia temos que morrer sem terminar este trabalho. Todo mundo tem que morrer no meio da vida. Portanto, não importa onde um ser é renascido, seja nos reinos mais baixos ou nos reinos mais altos, ambos estão cheios de sofrimento. Por exemplo, se o veneno é misturado com alimento - seja bom alimento ou comida ruim não faz diferença - não se pode comer. Do mesmo modo, não importa onde nasça, quer nos reinos mais altos ou nos reinos inferiores, desde que esteja dentro da roda de
existência, experimentará sofrimento.
Relacionado com isto está a explicação da lei do karma. Estamos obrigados em primeiro lugar a perguntar por que os sofrimentos que experimentamos acontecem. Cada coisa deve estar associada à sua causa. Todos os tipos de sofrimento são criados por ações não virtuosas. Uma ação não virtuosa é qualquer ação que seja criada pelo desejo, pelo ódio ou pela ignorância. Matança, má conduta sexual e roubar são as três ações corporais que não são virtuosas. Então, também, estão mentir, brigar, usar palavras ásperas e conversas ociosas, são as quatro ações da voz não virtuosas. A pessoa comete esses atos não virtuosos através do próprio discurso. Inveja, ódio e visões erradas são as três ações de mente não virtuosas. Em termos aproximados, todos as não virtudes estão incluídas nessas dez ações. Quando se admite as dez ações não virtuosas, não só se terá que enfrentar terríveis conseqüências, mas mesmo depois de enfrentar as conseqüências, terá resultados negativos contínuos. Em outras palavras, todas as coisas ruins que estão ocorrendo nesta vida também são criadas por nossas ações não-virtuosas, que cometemos em nossas vidas anteriores. As dez ações virtuosas [livres do ódio, desejo e ignorância] são o oposto dos dez atos não virtuosos. Não só as dez ações virtuosas dão maravilhosos resultados temporariamente, mas também o fazem para muitas vidas futuras. Em outras palavras, tudo de bom que está acontecendo em nossa vida foi criado por nossos próprios feitos virtuosos que realizamos em nossas vidas anteriores. Finalmente, praticando contínuos atos virtuosos, a auto-libertação, ou mesmo a iluminação final pode ser alcançada.
Há também ações indiferentes ou neutras, como andar e dormir. Embora sejam neutras, as ações não produzem nenhum sofrimento (e, a partir desse ponto de vista, são muito boas), mas uma vez que não produzem nenhum resultado virtuoso, são uma espécie de desperdício. É importante transformar essas ações indiferentes em atos virtuosos. Por exemplo, quando você está caminhando você deve pensar: "Que todos ganhem do caminho da libertação". Quando você conhece pessoas, você deve pensar: "Que todos os seres sencientes possam encontrar amigos virtuosos". E quando você está comendo, você deve ter a intenção de alimentar a enorme quantidade de germes que vivem no corpo. Todas as ações neutras devem assim ser transformadas em ações virtuosas.
Os sofrimentos do samsara e o sofrimento da roda da existência e da lei do karma, ou lei de causa e efeito, é explicada pela segunda linha deste ensinamento, "Se você deseja mais existência mundana, você não tem o espírito de renúncia ".
Meditando nessas duas coisas - concentrando-se no sofrimento da roda da existência e a lei do karma - vocês se afastarão de se agarrar à roda da existência e virão a perceber que a roda da existência está cheia de sofrimento. Para ser livre do sofrimento, é preciso considerar este mundo como se fosse um grande fogo, ou como um ninho de serpentes venenosas. Ao meditar neste ensinamento, começaremos a desenvolver um impulso interno real de colocar esses princípios em prática. Por exemplo, muitos iogues se concentram nos sofrimentos do samsara até que tenham o mesmo sentimento que um prisioneiro tem. Ou seja, eles desenvolvem o pensamento único: "Quando posso escapar?" Até que você tenha desenvolvido essa atitude, você deve meditar no sofrimento do samsara. A menos que realmente compreendamos os sofrimentos do samsara, não será possível praticar o Dharma. Neste sentido, o sofrimento é uma grande ajuda na prática do caminho. Quando o Senhor Buddha primeiro girou a roda do Dharma em Sarnath, uma das primeiras coisas que ele disse foi que era preciso conhecer os sofrimentos. A primeira Nobre Verdade é que se deve conhecer os sofrimentos. Se você pensa cuidadosamente sobre isso, você não poderá perder tempo por muito tempo.
Isso conclui a explicação dos sofrimentos do samsara e da lei do carma.
Linha Três do Texto
A linha três é: "Se você deseja a libertação por causa de si mesmo, você não tem a atitude esclarecida".
Se realmente entendemos que o mundo está cheio de sofrimento e acreditamos que somos capazes de liberar
nós mesmos praticando ações virtuosas, podemos realmente alcançar a auto-libertação. Contudo,
A auto-libertação não cumpre plenamente o próprio propósito, e não pode ajudar outras pessoas conscientes.
seres. De fato, a auto-libertação é um grande obstáculo para alcançar a iluminação final porque atrasa a iluminação final real. É muito importante desde o início
para estabelecer o objetivo mais elevado, que é alcançar a iluminação final por causa de todos os seres sencientes. Esta iluminação final deve surgir da causa e condições corretas.
A causa principal é a grande compaixão, a raiz é Bodhicitta, e a condição é um meio habilidoso.
Embora todo ser consciente deseje ser livre de sofrimento e quer ter felicidade, devido à ignorância, eles nunca podem conseguir. Nesse sentido, é errado pretender ser livre do sofrimento para si mesmo. Temos que pensar em todos os outros seres sencientes. Mas não podemos ajudá-los neste momento porque nossas impurezas e delírios nos prendem. Então, a única maneira que pode ajudar é alcançar a iluminação final - para que realmente possamos ajudar os outros.

Para alcançar Iluminação final, é preciso ter as causas certas. O primeiro é meditar no amor e compaixão. "Amor" significa que você deseja que todo ser consciente seja feliz e que tenha a causa da felicidade. Este desejo deve ser dirigido a todos os seres conscientes sem qualquer discriminação. Como não podemos produzir esses pensamentos em relação a todos os seres sencientes no início de nossa prática, procedemos gradualmente. Começamos por meditar sobre o amor e a compaixão por quem é mais querido para nós, por exemplo, nossa própria mãe. Começa por visualizar na sua frente, sua própria mãe ou qualquer pessoa que é querida para você. Então, lembre-se de toda a gentileza que fizeram por você. Por exemplo, se é sua própria mãe, considere que ela deu à luz, criou você na vida com um olho amável e amoroso, deu-lhe muito amor e cuidou de você. Embora agora ela esteja apontando para a felicidade, devido à ignorância, ela não pode ter felicidade. Ela está no meio do sofrimento e ela está causando mais sofrimento. Portanto, você deve desejar que ela seja livre e seja feliz e tenha a causa da felicidade. E então você reza: "Que ela seja feliz e tenha a causa da felicidade do Guru e da Triplice Gema". Mais tarde, você deve aumentar gradualmente esta visualização para incluir seus parentes e assim por diante. Finalmente, inclua indivíduos mais difíceis, como pessoas que você não gosta e seus inimigos. Você visualiza seu inimigo bem na sua frente e pensa que, embora nesta vida ele apareça na forma do inimigo, na verdade, em muitas vidas, ele foi minha mãe e meu pai muito amável, bem como parentes e amigos. Ele deu tanto amor e compaixão e tanto cuidado me foi dado. Mas agora mudamos nossas vidas e, como não lhe paguei sua própria bondade, hoje ele vem na forma do meu inimigo para ter toda a gentileza que ele deu. Hoje mudamos nossas vidas; não nos reconhecemos, portanto, devemos criar o pensamento: "Que ele seja feliz e tenha a causa da felicidade". E, gradualmente, você amplia essa meditação até que você possa ter o mesmo pensamento para todos os seres conscientes.


Quando alguém está bem treinado nesta meditação do amor, também pode usá-lo para aumentar os sentimentos
de compaixão. Primeiro, quem é mais querido para você, você visualiza e pensa: "Embora a pessoa quer felicidade, devido à ignorância, está no meio do sofrimento. Devido à ignorância, ela está fazendo mais sofrimento para si mesmo. Que ela seja livre de sofrimento e que ela seja
livre da causa do sofrimento". E da mesma forma, mais tarde você deve tentar estender essa meditação ao ponto de você ter o mesmo pensamento para todos os seres sem discriminação.
Quando você está bem avançado nesta meditação, é importante praticar "Tong Len". Dentro desta prática, nós visualizamos que toda a felicidade e as causas da felicidade (isto é, as ações virtuosas que tem), são dadas, sem hesitação, a todos os seres sencientes. E o sofrimento de todos os seres sencientes, bem como a causa dos sofrimentos, vem para si mesmo, visualizado como uma grande massa de sujeira. Esta "troca de meditação" é, obviamente, de grande beneficio. Quando alguém está bem versado nisso, praticamos uma das Seis Paramitas e as quatro coleções que temos no caminho principal de um Bodhisattva. Com isso, completamos as primeiras três linhas, o que explica o lado do método de todos os caminhos diferentes.

Linha Quatro do Texto
A linha quatro é: "Se você entender a visão da realidade final, você não tem a visão correta".
A quarta linha trata da visão. Mesmo se o pensamento
surgiu bem dentro de sua mente na Bodhicitta relativa, a iluminação relativa - , se ainda se agarra a todas as coisas como realidade, então cairá no erro do permanente e do impermanente. Portanto, vai cair nos extremos
da existência e da inexistência. Devido a isso, não estará livre dos sofrimentos do samsara.
Para ser realmente livre, é muito importante manter longe de se apegar à crença de que esta vida é real. O antídoto para essa crença iludida é a concentração e a sabedoria. A concentração é necessária porque nossas mentes estão concentradas em distrações e objetos externos. É realmente importante para fazer meditações de concentração, porque sem concentração adequada, não será possível alcançar sabedoria. Antes de poder meditar sobre a sabedoria, uma base forte deve ser construída.
A base para a sabedoria da visão é a concentração. A concentração deve ser feita num lugar isolado, longe das distrações, sentado na posição de lótus completo ou posição de meia lótus. Primeiro, você recita a oração do refúgio e cria o pensamento da iluminação. Então você deve assumir a posição de meditação completa, sentado em linha reta. Deve-se concentrar primeiro em qualquer objeto externo, de preferência em uma imagem de Buda. Desta forma, você está-se lembrando do Buda, que em si tem uma tremenda quantidade de poder. Você visualiza a imagem do Buda em frente a você em um trono de jóias, de cor dourada com a mão direita na mudra tocante à terra e a mão esquerda em seu colo na posição de meditação. Ele está vestindo as túnicas completas e sentado na posição de lótus completo. Concentre-se nesta imagem geral do Buda e as partes específicas do corpo também. Ou, você pode meditar em alguma outra forma de Buda, como Buda Amitabha ou outras divindades. Tente concentrar-se nisso. No início, parece que você tem muitos pensamentos, mas na verdade, isso é realmente o que está acontecendo o tempo todo. Normalmente, se você segue seus pensamentos, você não percebe isso. Enquanto isso, quando pensamentos vierem, em vez de ir atrás dos pensamentos, você apenas se concentra. Você volta e se concentra na imagem por um longo período de tempo. À medida que você desenvolve, seus pensamentos diminuirão, e poderá permanecer no mesmo objeto por um longo período de tempo. Então, depois de um tempo, poderá concentrar-se na imagem por um longo período de tempo. Quando isso acontece, é um sinal de que a sua concentração agora é forte o suficiente para poder meditar sobre a sabedoria. A concentração sozinha não fará nada, além de evitar distracções. Não vai tirar as raízes profundas das impurezas.


Para tirar a raiz profunda das impurezas, é necessário sabedoria. Em tibetano, a palavra "sabedoria" é "lhag-tong" (lhag mthong). Isso significa que, quando você examinar os dharmas externos e internos - a verdadeira natureza de todas as coisas - através da sabedoria, então, você é capaz de ver algo completamente diferente. Lhag significa "extra" e tong é "ver". Então, significa ver algo extraordinário. Você vê completamente além do existente e não existente; ultrapassou completamente os dois extremos. A concentração foi método e o fato real é a percepção da sabedoria. Quando você conseguiu meditar na sabedoria em vez de se concentrar em um objeto externo, você se concentra no real. Antes de meditar,
claro, é necessário explicar muitas coisas.
Em primeiro lugar, temos todas as visões diferentes que nós vemos, em outras palavras, animado e inanimado - todas as coisas que vemos. Pessoas comuns não
pensam: "Por que todas essas coisas aparecem?" ou "Por que devemos ver isso?" Eles simplesmente simplesmente aceitam as coisas como estão.
Uma pessoa com maior inteligência tentará se concentrar nessas idéias. Através da sua inteligência, são capazes de examinar a verdadeira natureza de todas as coisas. Por exemplo, questões como "por que nascemos assim", ou "por que vemos todas essas visões diferentes", "por que as pessoas têm visões diferentes, por que as pessoas têm sentimentos diferentes", e assim por diante.
No passado, quando os meditadores examinaram essas questões e tentaram descobrir a verdadeira natureza
de todas as coisas, todos chegaram a conclusões diferentes. Por exemplo, que toda a existência é
criada por Brahma ou assim por diante, de acordo com as diferentes escolas de filosofia da Índia.
Em breve, existem quatro escolas budistas diferentes: duas Hinayanas e duas Mahayanas.
Começando com as escolas Hinayana, a primeiro é ao Sarvastivadins ou Vaibahashikas. Quando examinaram essas questões, chegaram à conclusão de que em tudo o que vemos não existe senão átomos, mas os átomos estão existentes.
Por exemplo, para eles, uma mesa é uma verdade relativa. Afirmam que uma mesa é feita de enorme números de átomos juntos em uma forma particular e chamada "mesa". Então, a mesa é relativa, porque quando você a examina, você não encontra "mesa" em qualquer lugar - é apenas centenas de átomos.

Mas, quando examinaram o próprio átomo, o átomo mais ínfimo que não podiam dividir, eles asseguraram existir absolutamente. Assim, a crença da Vaibhashika, ou da escola Hinayana mais baixa, é que a mesa é verdade relativa e os átomos da mesa são verdade absoluta.

Mais do que esta é a visão da escola Hinayana chamada Sautrantika. Eles pensam que todos as visões externas são as mesmas que mantidas pelos Sarvastivadins. Além disso, eles sustentam que o objeto externo, o órgão do olho e a consciência do olho - essas três coisas se encontram. Então, no segundo momento, o olho, por assim dizer, tira uma foto desse objeto externo. Finalmente, tudo o que você pode ver é a imagem que foi tomada por sua mente. Eles consideraram isso como a verdade.

Então, ao pensar sobre essas questões desenvolvidas mais adiante no Mahayana, emergiram duas escolas, a Vijnanavada e o Madhyamika.
Na Vijnanavada, considera-se que tudo isso não é verdade - que tudo isso não existe no exterior, mas é tudo nossa projeção: é tudo projetado por nossa mente. Tudo é importante. Ninguém criou o que percebemos, apenas nossa própria mente criou essas coisas.
Por essa razão, para seres conscientes, um certo lugar é um lugar muito feliz, enquanto para certas pessoas é um lugar muito miserável. Então, é tudo nossa projeção - não há nada do objeto externo - tudo está projetado (em outras palavras, manifestado) de nossa própria mente. Tudo isso é a verdade relativa, mas a mente existe absolutamente.
Ainda mais alto que esta visão é o Madhyamika, que foi fundado pelo grande Guru, Nagarjuna. O próprio senhor Buddha profetizou que, após sua morte, haveria um bhikshu chamado Naga, e só ele poderia encontrar o significado oculto de todos os Prajnaparamita Sutras como Buda profetizou.
Nagarjuna veio, e quando ele examinou as coisas, ele não conseguiu encontrar nada, porque para sustentar que a própria mente é existente não está certo: A mente é sujeito e as coisas são objeto. Sujeito e objeto dependem um do outro.


Se não houver nenhum objeto, não pode haver um sujeito. Então, a mente, também, não existe. Mas aceita tudo relativamente - sem examinar as coisas - a forma como as pessoas comuns tomam para ser, como nas ilusões. Mas, na realidade, a visão de Madhyamikas é que você não pode encontrar nenhuma conclusão, como "A mente está existente". Ele não podia dizer nada.
A verdade
A natureza de tudo é completamente movida de dupla visão. É como um sonho. No sonho, vemos muitas coisas felizes ou vemos muitos sofrimentos, mas quando você acorda do seu sonho, você não os encontra mais. Todas as coisas que você viu no seu sonho desapareceram, e você não sabe de onde veio e para onde foi ou onde está ficando. Do mesmo modo, a visão atual é como um sonho muito longo. Somente esse sonho tem propensões muito firmes, portanto, pensamos nisso em termos de ser muito real. Mas todos os Budas e Bodhisattvas vêem que isso é como um sonho. Quando você atingir a Iluminação, é como despertar de seus sonhos. Portanto, todas as visões que você vê são apenas como reflexos em um espelho. Até que você tenha uma compreensão real firme, você deve tentar pensar que todas as coisas não são reais. É o que chamamos de visão e o vazio visto não dual. Relativamente, com todas as coisas que você vê, a visão não cessa - você pode ver o tempo todo. Quando você tenta examinar com o forte raciocínio da verdade absoluta, então você não consegue encontrar qualquer coisa que seja independente. Você deve tentar meditar assim até que você obtenha uma compreensão definitiva disso. Finalmente, você mistura a concentração e sabedoria, e tenta pensar que todas as coisas que foram explicadas são percebidas como shunyata. Na realidade, não há nenhum objeto "shunyata" e nenhum sujeito "mente" que realizou shunyata. A verdadeira natureza de todas as coisas é completamente fundida, assim como a água é fundida com a água e se torna completamente uma. Ao fazer a meditação dessa maneira, sua mente afastar completamente o apego à visão atual como real e percebe que isso é tudo ilusão. Todas essas ilusões se afastarão gradualmente. E então, como você continua, você será capaz de perceber a verdade do verdadeiro real. Ao perceber a verdade suprema, então, é claro, você partiu de todas as impurezas e é despertado de todas as ilusões. No tempo de meditação, devido à sua compreensão de shunyata, você entende que seres conscientes que não percebem esse shunyata devem sofrer um grande problema.


Com isso em mente, você é capaz de gerar grande compaixão. Através da prática da grande compaixão
e da compreensão de shunyata, - "assim como o pássaro no céu precisa de duas asas" -, com o método, a compaixão e a sabedoria (shunyata), a pessoa poderá atravessar o sofrimento de samsara. Será capaz de alcançar a Iluminação final. Na iluminação final, através da sabedoria, você alcança o dharmakaya, que cumpre suas tarefas e através da prática da compaixão você poderá libertar os outros. Dessa forma, você alcança o
Rupakaya e beneficia inúmeros seres conscientes para sempre. Então, com isso, concluímos as quatro linhas inteiras do Zhenpa Zhidel.

As seguintes perguntas e respostas estão relacionadas a este tópico.

P: Como um ser se torna um deva? O que é nesta vida que fazemos que provoca renascimento de deva?
Sakya Trizin: As ações virtuosas, como generosidade e conduta moral, etc. O resultado disso é nascer em uma vida humana ou no reino dos deuses ou do deus. Especialmente, com muita concentração, mas sem sabedoria, apenas a concentração externa em que sua mente muito estável, pode-se nascer no reino dos deuses. Ações virtuosas acompanhadas de sabedoria e com a intenção de bodhicitta se tornará a causa da iluminação, antes do que o caminho mundano dos devas.

P: Por favor, explique o conceito de carma e sua relação para causar e efetuar o mérito.
Sakya Trizin: Na verdade, a palavra carma significa ação ou atividades - o trabalho que nós empreendemos. A vida que passamos agora, e todas as suas experiências, é produto de ações que fizemos no passado. Ninguém pode nos fazer sofrer. Ninguém pode nos fazer feliz. Somente através da principal causa que vem de nossas próprias ações, seremos felizes ou infelizes. A principal causa é a nossa própria ação. As ações que tomamos criam o efeito
e o resultado.

P: Existem fatores que determinam quando durante as vidas futuras que o fruto das ações virtuosas de uma pessoa se manifestarão? Quais são os fatores?

Sakya Trizin: Depende da ação em si. Há certas ações que vão amadurecer nesta vida. Quando o objeto é forte, a ação é forte e a intenção é forte, então o resultado amadurece nesta vida mesma. Há certas ações que amadurecem nesta vida, depois dessa vida, ou mesmo em várias vidas mais tarde. A lei da causa e efeito é uma coisa tão sutil que nenhuma pessoa comum pode explicá-la completamente.

P: Ontem, você falou sobre o sofrimento. Na sua vida, você sofreu muito. Seus pais faleceram quando você era jovem, você foi forçado a fugir do Tibete. Você poderia
Compartilhe conosco como você usou esses eventos em sua prática e o que aprendeu?
Sakya Trizin: Experimentar o sofrimento é uma ótima lição. O ensinamento diz sobre impermanência e sofrimento, mas conhecê-lo intelectualmente e experimentá-lo na vida real é diferente. Os livros podem dizer-lhe muitas coisas, mas experimentar o que é na vida real ajuda você a perceber na prática. Faz a prática mais significativa, mais profunda e mais eficaz.

FIM


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

England late 1970s


HH Sakya Trizin, Khondung Ratnavajra, Gyalyum Kusho

Father Mother Son, England late 1970s

sábado, 13 de janeiro de 2018